Quando, há uns cinco anos, o presidente da Câmara do Fundão alargou para 4 corredores de trânsito a estrada que vai da saída do Fundão até Alcaria, qualifiquei essa como a grande obra “do regime” – e hoje continuo a pensar que o foi e o é. Pelo vislumbrar da “grande cidade da Cova da Beira”, que sempre defendi e continuo a entender indispensável à salvação do Fundão como cidade digna desse estatuto. E também porque essa é, ou seria, a 1ª fase de uma ideia de Fundão com imperiosa necessidade de ganhar identidade como cidade. Esta ideia assenta num projecto de reordenamento urbano em que a dignificação das entradas da cidade casava na perfeição com um plano de urbanização novo, moderno, eficaz ao desenvolvimento sustentado.
Uma ideia do futuro
O cerne da minha proposta de plano de urbanização residia na construção de três grandes alamedas ‘circulares’, que redefiniriam os limites naturais da cidade, assegurando a simbiose perfeita entre a modernização urbanística e a preservação do “tesouro” que é o enquadramento geográfico e ambiental do Fundão.
Uma dessas alamedas – a primeira – faria a ligação da existente rotunda das Donas às imediações da Zona Industrial, em linha quase recta. Seria o 1º lado do triângulo Donas – Quinta da Meimoa – Aldeia de Joanes/norte, um triângulo com prodigiosas características de regeneração da malha urbana da cidade e do centro do concelho.
Prepararíamos a cidade para ficar circunscrita nesse triângulo. Em relação ao seu actual perímetro, a cidade alargar-se-ia em direcção à Covilhã e deixando a Gardunha livre da devastação urbanizadora. Mas a serra, embora preservada na sua encosta, ficaria pelo seu sopé mais perto da cidade – e com um enorme benefício acrescido: a Gardunha aproximava-se das Donas, de Valverde e do Alcaide e o conjunto abrangia ainda Aldeia de Joanes e Aldeia Nova do Cabo, numa única e una área urbana.
A abertura das 3 grandes alamedas, cada uma rasgada com duas faixas e 4 corredores de trânsito, criava “automaticamente” uma nova vasta área de urbanização e construção em cada margem, o que abria um novo espaço de modernidade para a cidade e preservava os cascos históricos das 6 freguesias abrangidas, libertando-os da tensão que a construção tem exercido sobre eles.
Para servir e completar este grande núcleo, estava implícita a requalificação das entradas da cidade, carecidas de acessos largos e convidativos aos passantes da A23.
Tudo se conjugava numa simbiose que a Natureza propicia e a História recente legou, ainda que involuntariamente ou com erros de perspectiva que assim seriam rectificados.
A solução era importante, quaisquer que fossem os seus custos. E tornava-se ainda mais interessante porque as novas alamedas aproveitariam, em boa parte, caminhos já existentes – o que proporcionaria menos expropriações, menos movimentação de terras e, portanto, custos muito controlados.
O “Plano Refer”
Entretanto, veio o chamado “Plano Refer” – ou, melhor, renasceu ou tornou-se inadiável o plano, que já vinha do tempo das câmaras socialistas no Fundão, para os caminhos de ferro portugueses cumprirem a obrigação de supressão das passagens de nível e electrificação da linha da Beira Baixa. Pensada que estava há uma década, a obra avançou agora pelo Fundão dentro – e, ressalve-se, abriu uma boa oportunidade, uma oportunidade única para que o Fundão, “à boleia” desse grande investimento do Estado, mexesse na sua anquilosada e atrabiliária (des)organização urbana. A concretização do velho projecto só podia – só pode – ser bem-vinda à reorganização territorial da cidade.
Mas a construção do troço que vai da Rua Cidade de Castelo Branco até Valverde foi (a par da incompreensível barafunda que o túnel junto à ex-Escola Industrial tem criado aos moradores e comerciantes locais) o primeiro espinho do que parecia ser só rosas. Deixar a linha férrea ao nível da superfície e lançar a estrada por cima, se foi uma solução barata e fácil para a Refer, vai custar muito caro ao Fundão. Dificilmente se conseguiria, com uma só e tão pequena obra, aniquilar tantos objectivos grandiosos de uma só vez.
O maior erro, o maior dano desta opção pelo viaduto do Sítio dos Prados pode ser o de estrangular a entrada sul da cidade, o mais importante acesso desde a A23. Precisamente o acesso que urgia ser alargado e dignificado. Em vez da evidente solução da Alameda que partisse da rotunda das Donas, o acesso sul à cidade continua com o enorme problema da estreiteza e das curvas da estrada do Alcambar – e o pior é que, agora, ninguém sabe como poderá ser resolvido esse problema. Mas esse não é o único dano importante: o viaduto estabelece uma barrage irreversível na expansão da cidade para oriente e pelo sopé da Gardunha. A agravar, acresce o facto de ser impossível construir ruas ao lado da faixa da nova estrada (que é aérea) e absurdo construí-las por baixo do viaduto. Por outro lado, a freguesia de Donas ficará mais desgarrada da cidade e os valverdenses, se podem chegar depressa ao Fundão, ficam irremediavelmente isolados da cidade e com os solos da sua freguesia estraçalhados por uma rede viária que terá um único sentido útil: o de saída da freguesia.

Um Poder muito cioso dos próprios erros
Porque passou pelos fundanenses, intocável e incólume, este tão grave erro estratégico?
Por incrível que pareça, a opção por esta desditosa obra não foi sequer agendada para reunião da Câmara Municipal.
Prosseguindo uma metodologia de decisão sustentada a todo o custo pelo seu presidente (que concentrou em si todos os poderes possíveis) e pelo seu vice-presidente, que ordinariamente organiza a agenda do executivo e convoca as sessões, a maioria na câmara reserva para si mesma a decisão de todos os assuntos de fundo e leva ao órgão municipal apenas matérias administrativas e praticamente anódinas. Em coerência com este guardar “na manga” os assuntos que ao Município mais interessam, a maioria é autista ante a proposta e a disponibilidade dos vereadores eleitos pela oposição, que em cada reunião se dispõem à análise desses assuntos pelo órgão executivo, solicitam que eles sejam agendados, disponibilizam-se para dar ideias e colaborar no aperfeiçoamento dos projectos. Desde a 1ª sessão que isso é solicitado e manifestado, mas a maioria eleita é muito ciosa – cada vez mais – da sua “propriedade” sobre os destinos do Fundão.
Assim aconteceu com o “Plano Refer”, que apenas passou pela sala de sessões numa mostra do chamado “master plan” à imprensa, fora da ordem de trabalhos e por isso insusceptível de propostas, alterações ou sequer reflexão prévia. A solicitação da oposição para que o assunto fosse agendado foi, como sempre, desprezada.
Tudo muito lógico...
No adiamento de um grande debate sobre o plano de urbanização do Fundão, a ideia das 3 alamedas ficou pelo caminho. Como outras. Quando, por ocasião da campanha eleitoral de 2009, a ideia foi proposta, o poder instalado recusou o projecto de cidade núcleo de um perímetro irradiante com as freguesias adjacentes – o mesmo projecto que faz de Viseu uma das mais prósperas cidades portuguesas e deixará Fernando Ruas na História da Beira Interior. Contestou a luta pelos direitos do Fundão como território legal da Universidade da Beira Interior – direitos iguais aos que fizeram ressuscitar a Covilhã da letargia que parecia letal. Desprezou a fácil construção do metro de superfície Donas-Teixoso – enquanto Almada e Mirandela se relançaram como cidades com esse mesmo projecto. Encarregou os seus mandaretes de escarnecerem da ideia de ciclo-vias – a mesma ideia que hoje faz de Aveiro uma cidade de referência a nível europeu. E achincalhou a proposta de substituição dos carros de luxo dos autarcas por utilização de transportes públicos – medida que um ano depois vigora na Inglaterra para todos os cargos políticos até ao nível de ministro. Para a lenta morte do Fundão, o poder dono do concelho preferiu manter o rumo. Foi reeleito e está legitimado. E arroga-se o direito a levar essa legitimidade até à decisão sobre o futuro do concelho.
Com essa legitimidade, o poder autárquico aceitou e acelerou a nefasta variante para Valverde. E suspeito que, quando a Refer vier inaugurar o viaduto, o poder do Fundão lá estará, com os seus acólitos, arregimentados e comprometidos – e todos baterão palmas.