20 outubro 2011

Reforma da Administração Local: o livro que nos deixa verdes



A almejada, reclamada, invocada e sempre adiada…

O modelo administrativo português assenta numa série de leis e princípios estatuídos por quem pouco ou nada conhece da realidade territorial e populacional do país. Para completar o chorrilho de confusões que têm adiado uma reforma administrativa (atualizada e a sério) veio a Troika.

Aí vem agora a pomposamente chamada Reforma Administrativa, amarrada a um ditame tão insensato e acientífico como o de “reduzir significativamente as autarquias”. No memorando da Troika, o essencial é que se reduzam autarquias, o acessório é saber quais, o indiferente é apurar porquê, o desprezível é determinar como. Reduzir, extinguir, exterminar eis a ordem, que é mais que palavra-de-ordem é palavra-de-rei. Fundamentos, lógica, critério, isso são somenos.

E, agora, o diabo…

O diabo vai ser especificar um critério de escolha das ‘vítimas’ a abater. O Governo já pôs o chamado “Livro Verde” a circular entre os autarcas, sob a batuta dos presidentes de câmaras, claro está. Vai ser o diabo, eu não dizia?. A escolha das autarquias a abater vai cair (já caiu) nas mãos dos políticos-autarcas-profissionais – isto é, aqueles que mais satanicamente enovelaram a mixórdia que é o ordenamento autárquico português. Escolher que freguesias e municípios vão desaparecer não é questão de encontrar as parcelas de território cuja autonomia não tem razão de ser – vai ser negociata de partidocratas em risco de perda de carreira, barganha de lobbies ou cliques a arranjarem-se à volta de interesses que são deles próprios e só deles individualmente. Sobreviverão as autarquias que tiverem mais amigos-com-amigos. Quem acompanha a situação de perto sabe bem do que falo – porque já todos vemos o diabo no terreno.

Algum presidente de Câmara já se propôs reduzir o regabofe financeiro? Está quieto! Todos aceitam (ou se calam…) que se extingam as freguesias – desde que ninguém mexa nos municípios, essa ‘prodigiosa’ autarquia por onde passam todos os dinheiros que engordam empreiteiros, ajeitam carreira política a quem nada mais sabe fazer e, é claro, cavaram no Orçamento da República buracos do tamanho da Fossa do Mindanau.


Afastar os cidadãos, aumentando o desgoverno financeiro

Para já, matam-se freguesias – e sobrevivem municípios, claro. Como se fosse para racionalizar despesas, matam-se as freguesias que vivem da poupança de tostões e salvam-se os municípios que esbanjam milhões. Mas é só matarem-se as freguesias. Com a morte delas, engordam-se os municípios. Engordam-se, sim, que a coisa vai dar negócio rendoso… para os mesmos de sempre.

As freguesias não têm dinheiros próprios – vivem das transferências que lhes feitas pelos seus municípios.
Ao extinguir uma freguesia, o município tem direito a uma majoração nas verbas que recebe do poder central e que deveriam ser destinadas a essa freguesia. Que diria (ou terá dito) a troika disto? “Racionalizam-se” despesas… aumentando-se a despesa, que o município sempre geriu mal e agora fica com a oportunidade de gerir pior.

…E viva o arranjinho!

Pelo meio, cala-se a voz da extinta freguesia. Deixa de existir a única “ponte” entre a grande maioria das populações e a vida pública, adensa-se a bruma que afasta os cidadãos da cidadania, deixa-se a população ainda mais na mão dos partidocratas, sobretudo dos partidocratas que mais desengonçam as finanças locais – os presidentes de câmara e seus acólitos. Se a ideia é exterminar a cidadania e abafar a Democracia, melhor que isto só um capítulo na Reforma Administrativa que permita as Câmaras monocolores. Mas não têm os partidocratas que desesperar - O "Livro" de sinal verde para todos os arranjos já está no prelo.

28 abril 2011

Fundão a contas com as contas

Em reunião da Câmara Municipal, preocupei-me porque o Município está na situação de insolvência técnica prevista no art. 3º do Código da Insolvência.
O Presidente da Câmara considerou a minha posição "alarmante" - e disse que a dívida do Município "não é de 80 milhões, mas de 60 milhões".
Vejamos as Contas e recordemos as réguas da tabuada...


A Dívida Municipal

Balanço e Demonstração de Resultados elaborado pela Divisão Financeira da Câmara Municipal:
O Município liberta anualmente meios líquidos de cerca de 4 milhões de euros – e tem actualmente uma dívida de mais de 83 milhões de euros (69.760.171 + 13.663.242 euros).

Significa isto que, com os recursos que liberta, o Município precisará de 20 anos e 6 meses para pagar o que deve, mantendo o rumo e a performance que tem actualmente. Para corrigir a gestão que fez nos últimos anos e fugir à falência, o Município teria de cativar todos os seus recursos líquidos, não os destinando a nada mais do que pagar a dívida que já hoje tem, durante os próximos vinte anos e meio. Para voltar a ser uma pessoa de bem com os credores, o concelho teria de “congelar” a sua vida e estagnar o seu progresso durante os próximos 5 mandatos autárquicos.

A esta alarmante realidade acresce uma outra, como que “fatalidade”: quem financiaria uma tamanha dívida (20 vezes mais do que podemos pagar) a um prazo tão longo?

Nenhum banco arriscaria tal desastre de financiamento… salvo se com a fiança do Estado. Mas, atendendo a que o nosso concelho é de dimensão média no contexto nacional, se os restantes municípios do país tiverem performance e resultados idênticos aos do Fundão, o Estado Central ficaria onerado com uma dívida de 25.000 milhões de euros – ou seja, o equivalente a 5 vezes o valor que ainda este mês problematizou a sobrevivência financeira do próprio país.
Teríamos de pedir absurdo aventureirismo, completa irracionalidade ao Estado Central.

… e outro passivo

Mas o passivo que encontramos nas contas do Município não é só esta gigantesca dívida de 83 milhões.
No balanço e nas contas encontramos pior – ou, pelo menos, dados mais preocupantes:
Além dos 83 milhões que o Município deve, estão contabilizados mais 44,141 milhões de euros na rubrica “Proveitos Diferidos”. E o que traduz esta rubrica? Traduz fundos que o Município já recebeu e que se destinam a ser aplicados no ano seguinte.
O problema é que não temos nos cofres municipais esse dinheiro…
No meu alerta para o preocupante passivo não quis ser alarmante – e não somei estes 44,141 milhões que são apenas uma ficção. Contei apenas os 83 milhões que o Município deve. Os 83 milhões que estão assumidos em contratos com os bancos, contratos com datas de pagamento, com taxas de juros, com assinatura do Presidente da Câmara ou do seu vice-presidente.


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